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A profissão que sustenta o património habitacional das famílias portuguesas

Durante décadas, ninguém sonhava ser administrador de condomínios. Era uma actividade em que se caía, pelos acasos da vida, não uma profissão que se escolhia. Alguém com tempo livre, jeito para papelada e paciência para reuniões de condóminos acabava, quase por acidente, a gerir o prédio. Essa imagem está hoje completamente desactualizada. Em plena transformação digital e integração da IA, esta profissão está a tornar-se uma das actividades mais interessantes e com maior potencial para quem procura entrar, ou redireccionar caminhos, no mercado de trabalho.

Portugal tem cerca de 300 mil condomínios e mais de cinco milhões de pessoas a viver em regime de propriedade horizontal. Contudo, o País tem um parque habitacional que envelhece mais depressa do que se renova. O índice de envelhecimento dos edifícios – calculado pelo INE a partir dos Censos 2021 – indicava que, por cada 100 edifícios construídos depois de 2011, há 747 mais antigos. Na última década, surgiram apenas 110 784 novos edifícios em todo o país, um número muito inferior ao registado em décadas anteriores.

Se a tendência se mantiver, e não há razões estruturais para esperar o contrário, a pressão sobre a manutenção do edificado só vai aumentar nos próximos anos. Envelhece o parque, envelhecem também as infraestruturas técnicas, elevadores, redes eléctricas, coberturas, sistemas de segurança contra incêndios, e sobe a fasquia da regulação energética e de acessibilidade a que os edifícios têm de responder. É um problema que atravessa gerações e que tem, no imediato, um efeito muito concreto na vida das famílias: o valor do património que construíram ao longo da vida.

Estes indicadores revelam o cenário em que uma profissão emergente se transforma em oportunidade de carreira. E é aqui que entra o papel fundamental da administração de condomínios, porque esta é uma profissão incrivelmente diferente do que era há uma década.

Actualmente, um administrador de condomínios gere património de elevado valor, movimenta orçamentos que vão de milhares a milhões de euros, acompanha obras de reabilitação, negoceia com seguradoras, supervisiona fornecedores e responde por dezenas de obrigações legais, fiscais e de protecção de dados. Precisa de perceber de direito e de contabilidade, mas também de sistemas construtivos, eficiência energética e segurança, para conseguir dialogar de igual para igual com engenheiros, arquitectos e empresas de manutenção. E precisa, sobretudo, de saber gerir pessoas, porque mediar conflitos entre dezenas de proprietários com interesses divergentes é, no fundo, um exercício diário de negociação e liderança.

Esta amplitude de áreas de actuação é, do ponto de vista de atracção de talento, uma vantagem rara. Poucas profissões absorvem perfis tão diversos. Quem vem do direito encontra aqui um terreno de aplicação prática constante, quem vem da gestão ou das finanças encontra orçamentos, contas e fiscalidade reais para gerir, quem vem da engenharia ou da arquitectura encontra edifícios para conservar e reabilitar. Já quem vem de áreas comerciais ou de atendimento encontra na mediação de condóminos um desafio de relação humana permanente. Em suma, esta não é uma profissão de nicho. É um ponto de encontro entre diferentes disciplinas, o que a torna especialmente atractiva, tanto para quem está a escolher o primeiro emprego, como para quem procura reconverter uma carreira já feita noutra área.

A transformação digital reforça ainda mais este argumento. Plataformas de gestão de condomínios, assinatura electrónica, arquivo digital, automatização de processos administrativos e, cada vez mais, ferramentas de inteligência artificial deixaram de ser um extra e passaram a ser parte do dia-a-dia da profissão. Para quem entra agora no mercado de trabalho, isto significa que a fluência digital que já traz de casa – o à-vontade com aplicações, dados e automação – deixa de ser um simples complemento ao currículo para se tornar uma vantagem competitiva directa numa profissão que está, neste preciso momento, em pleno processo de transformação digital.

Há ainda uma dimensão que os departamentos de Recursos Humanos conhecem bem: o propósito. Cada vez mais candidatos, sobretudo os mais jovens, procuram trabalho que produza um efeito visível e tangível, que não se limite a ser apenas uma linha num relatório trimestral. Um administrador de condomínios vê o resultado do seu trabalho todos os dias, no prédio que deixa de ter infiltrações, no elevador que volta a ser seguro, no edifício que se valoriza porque foi bem gerido.

É protecção directa do património de centenas de famílias, um resultado que permanece visível na própria cidade, no edifício que se reabilita quando antes se degradava, na propriedade que se valoriza em vez de se perder. Poucas profissões permitem esta ligação tão imediata entre esforço profissional e benefícios tangíveis para a comunidade.

Falemos, ainda, de oportunidade e progressão. Um sector jovem e ainda fragmentado – com quatro em cada dez empresas a operar há menos de cinco anos – é também um sinal de espaço para crescer dentro de uma empresa, se para especializar em áreas como reabilitação energética ou gestão de sinistros, ou para, mais tarde, constituir a sua própria estrutura. Em mercados maduros e regulados, como o das empresas de contabilidade ou de mediação imobiliária, esse espaço já está preenchido. Na administração de condomínios, ainda não está, e é essa margem de progressão que deve ser ponderada por quem está a decidir onde investir os próximos anos da sua carreira.

O sector sabe que precisa de maior regulamentação e profissionalização, e essa regulação virá, mais cedo ou mais tarde, acompanhada de exigências de formação específica. Mas antes de ser uma obrigação, a formação devia ser lida como a porta de entrada para uma profissão multidisciplinar, com elevada integração de tecnologia, com procura garantida e com impacto tangível. Quem está hoje a orientar talento para o mercado de trabalho tem aqui uma oportunidade de apresentar uma profissão de futuro que sustenta, silenciosamente, o património que o País já construiu, e que só continuará de pé se houver quem saiba cuidar dele.

Por Alexandre Teixeira Mendes, presidente da Direcção da ANPAC (Associação Nacional dos Profissionais de Administração de Condomínios)